Por: Lily de Lucca

O panorama dos grandes restaurantes e escolas de culinária internacional é dominado por homens. Há quem fale em preconceito e machismo na indústria. Determinadas a mudar esse cenário e mostrar que o lugar da mulher é, sim, na cozinha (mas não na de casa!), Daniela Martins, Manoella Buffara e Eliane Carvalho foram atrás do sonho de se tornarem grandes chefs. Saíram mundo afora (ou aprenderam com a vovó!), voltaram com muita garra e conseguiram conquistar esse trono.    

Agora, cada uma conta a sua história.      

 Chef por acidente 

A curitibana Manoella Buffara nunca tinha pensado em cozinhar profissionalmente. Seu primeiro contato com as panelas aconteceu por acaso, em uma viagem. “Eu fui para os Estados Unidos para trabalhar numa estação de esqui, mas não tinha neve! Acabei caindo na cozinha...”, ela conta.  

Essa entrada inesperada no mundo da gastronomia trouxe revelações para Manu. Ela se apaixonou pelos tachos e panelas, e quando voltou para o Brasil estava decidida a estudar gastronomia.  

Mas Manoella queria aprender com os grandes mestres e por isso não ficou muito tempo em casa. Fez as malas e rumou para a Itália, estudou no Centro Europeu e tirou um certificado de culinária profissional no ICIF (Instituto de Cozinha Italiana para Estrangeiros), em Costiglioli D´Asti.  Manoella, chef de cozinha  do Restaurante Manu

Na Itália ela trabalhou com astros da cozinha: o chef Gualiero Marchesi, inventor da nova cozinha italiana, e também no Ristorante da Vittorio, de Vittorio Cerea, casa que faz parte do circuito gourmet internacional e já foi premiada com três estrelas Michelin.  

Em uma das suas férias de volta ao Brasil, em Curitiba, ela resolveu não voltar mais para a Europa. Espontânea por natureza, ela explica: “Simplesmente resolvi ficar por aqui!”  

Logo foi contratada para assumir alguns restaurantes da rede de hotéis Deville. Mas, em 2011, com 27 anos, ela sentiu que era hora de ser dona de seu próprio negócio. Abriu o Manu, restaurante marcado pela mistura das mais sofisticadas técnicas europeias e os ingredientes característicos da culinária curitibana. O cardápio também é flexível e imprevisível, como a proprietária. Ela monta o cardápio no próprio dia, segundo os ingredientes frescos que encontra. Para ela, essa procura por ingredientes é o que mais enriquece sua carreira, mas também é o que afugenta algumas mulheres da profissão. “Depende do estilo de vida que cada pessoa quer ter, mas para mim é muito bacana conversar com o feirante, negociar preços, viajar, não ter tempo pra sair à noite”, ela brinca. Mas admite que “é corrido”. Mesmo com a vida cheia de compromissos, Manu explica que o seu casamento e a sua vida pessoal inspiram bastante os pratos que compõe. “A busca pela comida ideal não é só dentro da cozinha”, a chef conta.  

Restaurante Manu
Alameda Dom Pedro II, 317, Bairro: Batel, Curitiba (PR)
De segunda a domingo, das 20h às 24h. Tel.: 41/ 3044-4395      

 

Momento de mudança  

Eliane Carvalho estava casada, com três filhas e tinha um emprego estável na área de marketing. Mas, de repente, ela começou a questionar o seu próprio rumo quando percebeu que curtia mais os momentos que passava em casa, cozinhando para a família, do que no trabalho que fazia no escritório.
Risoto a La Babette do Brie Restô
Foi quando decidiu pendurar o tailleur e vestir o avental de vez. “Fiz um curso de francês e fui para a França estudar gastronomia”, conta com orgulho. Ela escolheu precisamente uma das mais renomadas escolas do mundo, a Le Cordon Bleu. Passar quase dois anos em um continente diferente de sua família e de seus amigos não foi moleza, mas ela partiu e voltou feliz.  

Abriu seu primeiro restaurante no Mato Grosso, seu estado natal, mas ambicionava algo maior. Logo criou o Brie Restô, em São Paulo. Nele, Eliane se tornou a poderosa chef de comida francesa que é hoje aplicando as técnicas que aprendeu lá fora. Mas ela conta que não é fácil. “[Nós, mulheres] acabamos tendo que cuidar de muitas coisas: do negócio, da família e da casa, tudo ao mesmo tempo”. Contudo, a chef acha que isso fortalece as mulheres, que felizmente têm mais escolha do que antigamente. “Hoje é mais fácil entrar na gastronomia através de cursos de ótima qualidade aqui mesmo no Brasil. Na minha época, a única opção era estudar fora. E foi o que eu fiz”.  

Hoje, com 47 anos, Eliane se sente realizada na sua profissão e na sua vida pessoal. “As minhas filhas já estão começando a gostar de gastronomia”, diz com orgulho e empolgação. “Gastronomia é arte. E arte tem tudo a ver com as mulheres, que são mais sensíveis e apaixonadas!”, finaliza.  

Brie Restô
Rua Doutor Melo Alves, 216, São Paulo (SP)
De terça a sábado, das 18h às 00h, exceto sextas e sábados que fecha à 01h. Domingos das 12h30 às 17h. Aos sábados também abre para almoço das 12h30 às 17h. Tel.: 11/ 3081-4690 ou 11/ 3063-4838.    

 

Tradição de família  

Daniela Martins viaja constantemente para fazer cursos rápidos e especializações, mas é categórica quando afirma: “O meu maior aprendizado foi aqui mesmo, em Belém do Pará”. Ela cresceu vendo a avó fazer doces e salgados para fora. Mais tarde, também seu pai, o embaixador da comida paraense, o chef Paulo Martins, empreendeu na área. Quando ele abriu o restaurante Lá em Casa, toda a família quis ajudar. “Eu fiz de tudo no restaurante! Só não fui garçonete, nem lavei prato”, brinca.  Filhote no Leite da Castanha-do-Pará

Ela confessa que no começo não estava muito habituada aos pratos salgados, mas com o tempo foi absorvendo o conhecimento da família.

A recém chef é casada e mãe de duas meninas. Quando seu pai faleceu há quatro anos, honrou o nome da família e assumiu a responsabilidade sob as panelas.  

Desde então, ela admite que percebeu que há preconceito no ramo. “As pessoas sempre esperam um chef homem na cozinha profissional. Mas as mulheres estão cada vez mais inseridas na indústria e vamos mudar esse quadro!”, afirma. Ela conta que o trabalho é pesado. “Por isso acham que nós [mulheres] não damos conta. Não é uma vida de glamour, trabalhamos duro, mas quem tem amor e paixão pela profissão aguenta”, diz, otimista. “A gastronomia é linda, mas só fica nela quem ama de verdade!”, afirma.  

Daniela não acha que seja um modelo a seguir. “Existem chefs de cozinha como a minha avó, que já estão com 70 anos e seguem na batalha, que são mais admiráveis do que eu. Confesso que segui muito mais o exemplo da minha avó do que de meu pai”, ela conta.  

A jovem de 36 anos explica que o conhecimento local pode ser tão válido quanto o de sofisticadas escolas de gastronomia e que, além de tudo, oferecem um aprendizado único: o do amor e empenho que passam de geração em geração.  

Lá em Casa
Av. Boulevard Castilho França, Estação das Docas, Galpão 2, Loja 4, Campina, Belém (PA)
Diariamente, das 12h às 0h. Tel.: 91/ 3212-5588

 

Fotografias: Divulgação. Em cima, lado esquerdo: Daniela Martins. Em cima, lado direito: Manoella Buffara.

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