Por: Natasha Sá Osório


Todos os anos, milhões de peregrinos ou pessoas procurando o próximo desafio traçam a trilha no norte da Espanha em busca do santuário do apóstolo de São Tiago, percorrendo um dos vários Caminhos de Santiago de Compostela. O Brasil é o 13º país que mais envia turistas para lá.

Essa odisseia espiritual pode ter vários percursos. Cada caminho e o tempo para o fazer é individual: não é uma maratona e sim uma viagem para refletir, conhecer outras almas errantes e superar metas de forma tranquila.

Os roteiros dos Caminhos de Santiago mais populares são três:

Caminho francês tradicional: são 800 quilômetros, partindo de Saint Jean Pied de Port, na França, junto à fronteira com a Espanha. O caminho aragonês junta-se a este, mas saindo de Samport, na Espanha.

Caminho da Prata, o mais longo: 940 quilômetros, partindo de Sevilha, no sul de Espanha. Perfaz a Via da Prata, uma antiga estrada romana, e passa pela cidade de Chaves, na região de Vila Real, em Portugal.

Caminho português: há vários caminhos que podem partir desde a capital portuguesa, Lisboa (554 quilômetros), passando ou começando por outros lugares, como a sagrada terra de Fátima (430 quilômetros), Porto (240 quilômetros) ou já na cidade fronteiriça de Tui, na Espanha

 

                                   Caminhos de Santiago de Compostela

 

Dicas espertas:Credencial do Peregrino

Orçamento mínimo: mil euros para fazer o percurso tradicional francês em um mês - dormindo em albergues municipais preparados para os peregrinos e deixando donativo nesse tipo de acomodação; cozinhando em albergue. Exclui passagens aéreas e gastos supérfluos ou extras.

Quando ir: as temperaturas são mais convidativas de abril a novembro. Procure evitar os meses de julho e agosto, quando o caminho fica mais lotado devido às férias locais.

Souvenir oficial: se pretender adquirir a compostela - documento que atesta a passagem do peregrino nos últimos 100 quilômetros do percurso feito a pé ou a cavalo - lembre-se de usar a Credencial do Peregrino. Essa espécie de passaporte permite colecionar carimbos nas igrejas, albergues e lojas com o símbolo dos peregrinos, a concha de vieira, para obter a compostela no final.

Leia as dicas de peregrinas e saiba o que levar a seguir aos relatos pessoais.


Relatos de peregrinas:

Inês Resende tem 29 anos e fez o caminho português partindo de Tui em setembro de 2013.

“Resolvi entrar nesta aventura porque era um sonho antigo e sentia que precisava deste desafio. Comecei a jornada cInês Resendeom o meu pai, mas logo na primeira noite, no albergue de Mos, entendi que não estávamos sós. A dado momento já tínhamos companheiros. Vamos em ritmos diferentes, mas na mesma direção, por isso começamos a conversar com as pessoas sobre as nossas vidas, a trocar reflexões, medicamentos e dicas. Durante o caminho estamos sempre acompanhados e nos albergues é o momento em que a diversão e convívio fortalece as relações. Descobri que durante o percurso estamos mais disponíveis para ajudar e escutar os outros, ao contrário do que acontece no dia a dia. Todos os que passam por nós, peregrinos ou não, saúdam com um “Hola, bon Camino!” (Olá, bom Caminho!). Ao chegar a Santiago de Compostela pensei que não ia mais voltar a ver muitas dessas pessoas, mas, como a cidade é pequena, acabamos por nos reunir novamente.

O caminho é um momento de reencontro com a própria pessoa, de paz. Os obstáculos diários têm outro sabor. Apreciam-se as mais pequenas coisas da vida, como o vento que começa a soprar quando se pensa em desistir no meio de uma floresta, por não aguentar mais o calor. Valorizam-se os  pequenos gestos, como o senhor que oferece uvas da sua vindima para dar força para continuar. Desafia-se a sair da zona de conforto e fazer coisas como andar de carona. Reflete-se na vida e nas pessoas mais próximas, toma-se decisões para melhorar. Quem faz o caminho vai em busca de algo e durante o caminho tem tempo para procurar, pensar e até aprender com os outros. Entende-se que muitas das coisas que temos nas nossas vidas são dispensáveis, como, por exemplo, muitas roupas e sapatos. Aprende-se que muitos dos problemas que temos só são problemas porque assim decidimos que sejam, porque não sabemos aceitar e nos fazemos de vítimas em vez de pensarmos: «o que posso fazer?».”

 

Devair Delgado tem 50 anos e fez o caminho cinco vezes. O francês em 2001, 2005, 2009 e 2012 e o aragonês em 2007.Caminho Francês

“Antes de ir pela primeira vez, tinha muita vontade de tentar algo novo e principalmente de descobrir coisas sobre o meu eu, buscando meu caminho interior. Para me preparar, fiz algumas caminhadas, mas devo confessar que foram poucas. Pesquisei bastante sobre o caminho lendo livros históricos e de outros peregrinos, ou até me encontrando com pessoas que já tinham feito para ouvir os seus relatos.

Percorrer o caminho é uma aventura física e espiritual. Acredito que meu maior preparo espiritual foi ouvir essas histórias dos peregrinos. Hoje, confio mais nos sinais do universo, encontrei uma plenitude espiritual e me conheço melhor. Fisicamente, estando preparada ou não, paga-se o preço das horas de caminhada: dores musculares, dores dos joelhos, bolhas e, em muitos casos, tendinites. Afinal, nem todo mundo caminha 25 ou 30 quilômetros todos os dias durante vários dias!

O caminho francês é o meu preferido por ter sido o primeiro que fiz, mas na verdade todos os caminhos acabam por confluir nele a determinado ponto.

A chegada a Santiago é uma mistura de alegria por finalmente chegar e tristeza por terminar. Fiz muitas amizades especiais e recomendo a todos fazer esta aventura. Pois o percurso é uma grande analogia da vida e nele entendemos melhor o nosso caminho na vida.”

 

Joana Corrêa tem 17 anos e fez o caminho português saindo da cidade de Valença (na região do Minho de Portugal), duas vezes: em 2010 e 2011. A peregrinação fez parte de uma iniciativa do colégio cristão que a Joana frequenta.

Joana Corrêa, sua irmã gêmea e amigas“As duas vezes que fui foram experiências únicas. A estrada é a mesma, os lugares por onde passamos não mudam, mas o convívio é aquilo que marca cada quilômetro. Andamos por etapas que duram entre 20 e 25 quilômetros durante 6 dias. Nós não ficávamos nos albergues de peregrinos, mas sim em ginásios afastados da estrada e das povoações. Dormíamos no chão e apenas duas horas por noite porque levantávamos antes do nascer do sol para deixar tudo ainda mais limpo do que quando chegávamos. Tomávamos banho de água gelada, comíamos o que houvesse nos cafés locais (muitas vezes só havia um por povoação) ou em supermercados, existentes nas maiores cidades, como em Pontevedra. Mas, no fim, a experiência compensa. O convívio vale por tudo: o espírito de sacrifício conjunto, a interajuda no transporte das mochilas, na hora de encher os cantis nas fontes, o incentivo a continuar na iminência de desistir... A interação e o carinho da população local são incríveis. Nunca esqueço dos velhinhos que abriram as portas para usar os seus banheiros, as vãs de pão fresco que ofereciam baguetes quentes e as pessoas que deixavam usar suas mangueiras para encher o cantil.

Chegando em Santiago é normal sonhar em ficar nem que seja uma noite em um hotel! Nas duas vezes que fui, a nossa entrada na cidade foi emocionante. Éramos cerca de 100 pessoas, cantando músicas que escolhemos pelo caminho. O peregrino da frente levava a bandeira de Portugal e todos os que passavam por nós aplaudiam vivamente. Foram chegadas triunfais, diria mesmo!

A vontade de voltar perdura, porque cada caminho é UM caminho e não mais um: há sempre algo novo e especial a acrescentar.”

 
Dicas das peregrinas:Catedral Santiago de Compostela

- “Leve só o indispensável na mochila, no máximo 10% do seu peso”, Inês.

- “Cada um faz seu percurso individual. Conheça a história e relatos sobre o caminho e se jogue”, Devair.

- “Coloque creme nos pés ao deitar e calce meias para que os pés se recuperem até ao dia seguinte”, Inês.

- “Tome consciência do que envolve esta longa caminhada antes de ir”, Joana.

- “Durma nos albergues para conviver com os outros peregrinos”, Inês.

- “Não ceda à tentação de contratar uma empresa para que levem a sua mochila, pois assim não se vive a verdadeira experiência da peregrinação”, Inês.

 

O que levar:

“Meias indicadas para caminhar, camisetas dryfast (que secam rápido) e botas com palmilha Gore-Tex [material transpirável e impermeável]”, Inês

MicroCaminho Santiago de Compostelaporo [fita hipoalergênica para fazer curativos nos pés], Vick e uma pedrinha. A pedrinha faz parte de uma das tradições do Caminho. Levamos uma representando nossos problemas e deixamos na Cruz de Ferro, um lugar com grande energia no Caminho [é o ponto mais alto do percurso francês, a 1504 metros de altitude]. Quanto ao Vick, ele é muito bom para deixar os pés com menos atrito, evitando bolhas. Muitos usam vaselina, mas eu prefiro o Vick pois tem o mesmo efeito e evita mau cheiro”, Devair.

Cremes para os pés: de massagem, para as manhãs, e com analgésico, para passar à noite. Um cantil é indispensável para poder beber água nas etapas sem povoações, por isso encha sempre que possível. A Credencial do Peregrino deve acompanhar em cada etapa para que possa carimbar ao longo das povoações e, assim, servir como comprovativo da caminhada”, Joana.

Fotos: Caminho de Santiago de Compostela (primeira imagem). Mapa do Google com os três caminhos mais populares (segunda foto). Credencial dos Peregrinos (terceira imagem, à direita). Inês Resende (quarta foto, à esquerda). Devair Delgado (quinta imagem, à direita). Joana Corrêa, do lado esquerdo, junto com sua irmã gêmea e uma companheira de trilhas (sexta foto, à esquerda). Catedral de Santiago de Compostela (penúltima imagem, à direita). Peregrinas (última foto).

Comentários

Oi, tudo bem. Eu pretendo fazer o caminho com meu marido, mas minha filha de 10 anos esta implorando p ir tambem. Posso leva-la?? ha crianca no caminho?? qual a idade minima recomendada?? vamos fazer de bike. Qual a sua opiniao. Obrigada.

Olá Gil!

Por vezes há crianças e adolescentes fazendo o Caminho de Santiago de Compostela, seja em excursão com escolas/grupos religiosos ou até mesmo com os pais. Mas, nesse caso, o percurso escolhido é quase sempre o mais curto, isto é, saindo de Tui, já na Espanha mas perto da fronteira com Portugal.

Vale ressaltar, contudo, que os grupos de crianças que já observamos vão acompanhadas por um motorista com carro ou van, que "recolhe" as que estão demasiado cansadas para que elas não fiquem para trás. No seu caso, vocês não terão essa opção. Por isso, o percurso deve ser bem estudado. Desde Tui, são 115 quilômetros que deverão ser feitos com paradas frequentes para comer e dormir, por forma a não saturar a sua filha. As crianças nessa idade têm bastante energia, mas podem se cansar de repente ou ficar aborrecidas. Veja dicas sobre viajar com crianças aqui.

Quanto a fazer a viagem de bike, isso vai depender de algumas questões. Vocês já fazem longos percursos com ela de bike? Como está a forma física de sua filha? Ela foi ensinada quanto às regras de segurança na hora de pedalar na estrada? Se não for o caso, será preciso praticar e educar nesse sentido previamente. Que tal experimentar um percurso mais curto aqui mesmo no Brasil antes de ir?

Será importante que toda a família esteja preparada física e psicológicamente para esta jornada e até mesmo visitar um médico para um check-up antes de partir.

Siga o seu instinto, sempre. E lembre-se que essa pode ser uma bela oportunidade para aumentar os laços familiares e ajudar na formação da sua filha.

Parabéns pela iniciativa! E não se esqueça de voltar aqui para nos contar como foi ;)

Um abraço,
Natasha e Equipe Mulher Viajante

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