Por: Natasha Sá Osório

O deserto de Rajastão, no noroeste da Índia, proporciona aventuras de camelo, passeios às casas locais, espetáculos de música tradicional e romance debaixo das estrelas. Um cardápio completo para quem quer mergulhar na natureza e nos costumes indianos numa viagem a dois.

Não há no mundo todo pôr-do-sol mais radiante e viçoso que no deserto do estado do Rajastão. O sol desce no horizonte, redondo tipo queijo e cor de laranja tijolo, lançando no céu tons diversos para o espetáculo diário acompanhado por uma pequena audiência atenta e dengosa, convidando ao romance. Mas não é só este fenômeno que apaixona o visitante mais calejado. Todo o cenário pintado em mil cores corta a respiração: no meio de dunas de areias que se espalham até perder a vista, os visitantes vivenciam o momento sentados em cima de camelos cobertos por mantas coloridas incrustadas de conchas, espelhinhos e pompons. Essa experiência é dada pelo resort Manvar, que, cravado no deserto, é um verdadeiro oásis.

Uma viagem à Índia a dois tem de incluir um passeio como este na pequena aldeia com o pomposo nome de Khiyansaria, perto de Dechu, que fica entre as grandes cidades de Jaisalmer e Jodhpur. Seria fácil passar reto na estrada e não reparar no elegante e discreto resort Manvar qpôr-do-sol, Rajastãoue parece ser o maior foco de atividade num raio de vários quilômetros. Na verdade, o resort e as atividades que ele fornece são o real motivo para parar por ali.

O complexo central do hotel é requintado mas simples, todo em argila com tetos de colmo. Logo à entrada um homem de bigode e turbante toca a algoza, um instrumento do folclore indiano derivado da flauta, numa melodia alegre para receber os visitantes. Alí fica o spa, os restaurantes e a piscina, mas os convidados pernoitam em suntuosas barracas no meio do deserto, com direito a banheiro de luxo, com atenção especial a detalhes simpáticos como a lamparina na mesa de apoio no alpendre e a rede de dossel que envolve a cama.

Entre várias, uma atividade oferecida é o safári de jipe pelas dunas onde podíamos apreciar a fauna e a flora local e conhecer as casas rurais.

O nosso jipe foi dirigido por um indiano de uniforme que parecia um traje de militar com direito a boina, chamado Chandra Ram. De 55 anos e sempre sorridente, ele parecia se divertir descendo dunas em alta velocidade, nos fazendo saltar nos bancos de trás, sobretudo quando não víamos para além da areia e de repente caíamos a pique, numa adrenalina! O nosso guia se chamava Mahendra Singh, um sobrenome de ascendência sikh que, aliás, era o sobrenome da maioria dos funcionários. “O dono deste resort é um verdadeiro empreendedor” - ele explicou, com orgulho. “Ele começou com uma pequena loja na estrada. Foi juntando tostão por tostão e depois teve um restaurante. Com o tempo ele conseguiu erguer este hotel requintado que, felizmente, tem muito sucesso.

Aqui e alí o desertopovoado, Rajastão é salpicado por vegetação dispersa e povoado por pavões, veados, ovelhas e (claro!) camelos. A primeira parada foi numa oficina de ferreiros onde pudemos ver como tratam o ferro de forma manual. Duas bolsas de ar são manuseadas para atiçar o fogo que o ferreiro usa para aquecer o ferro e depois moldá-lo com um martelo. Depois de nos deixar tentar manusear as bolsas de ar, vendo o nosso desespero e falta de jeito, o ferreiro ofereceu o seu cachimbo tradicional para experimentarmos.

Em seguida fomos visitar uma casa local, composta por divisões anexas embora a família dormisse toda junta numa sala comum em camas de madeira simples que eram postas de lado durante o dia. Alí os objetos eram manuais porque não tinha eletricidade e a cidade mais próxima, onde os aldeões têm de ir buscar água, ficava a quatro quilômetros. Pendurado na parede foi-nos mostrado uma bolsa de pele de camelo que servia para irem buscar a água fresca.

Fomos recebidos por três crianças e pela dona de casa, uma jovem tímida que trazia um véu tapando o rosto, como devem fazer as mulheres casadas daquela área da Índia. Vestida de laranja vivo, ela se escondia na sombra das crianças que, sendo meninos, eram mais extrovertidos e faladores. Quando eles faziam demasiadas perguntas, o guia os mandava calar de forma ríspida. “Vá, calem a boca, não incomodem as visitas!” Nós insistíamos que falassem e brincávamos com eles. A graça de visitar uma casa local passa por conseguirmos conhecer melhor quem vive lá. 

A parte mais interessante da casa, contudo, era a cozinha, um anexo redondo de teto em paus de madeira e porta baixa. A falta de geladeira fez com que todo o design da cozinha fosse direcionado para minimizar o calor, por isso as poucas janelas eram pequenas e os legumes eram colocadMulher Indiana do Rajastaoos em reentrâncias nas paredes. Não tinha armários ou mesas, pois eles comiam no chão e penduravam nas paredes os rudimentares utensílios de metal, pedra ou madeira que precisavam.

Já do lado de fora,  num canto, um bebê dormia numa rede improvisada, feita de tecido e preso com cordas às pernas de uma cama. Quando os homens estavam conversando mais adiante, a dona da casa chegou mais perto, por trás de mim, e sussurrou: “Tira uma foto de mim...” E, com muito cuidado para que os homens mais velhos não olhassem, ela levantou o véu e eu fiquei atônita. Ela era realmente jovem, uma menina, e muito bonita. Trazia nos olhos uma expressão carregada, forte e vivida. Numa área onde os casamentos arranjados ainda predominam, o nosso guia explicou que a idade média das jovens noivas é de 14 ou 15 anos. Assim que lhe mostrei a foto que havia tirado, ela sorriu e voltou a esconder o rosto. Depois disso, não disse mais que um “adeus” quase mudo quando fomos embora.

À noite, perto das barracas, um círculo de pedra no chão serviu de palco a um espetáculo de música e danças tradicionais do Rajastão. Os artistas trajavam roupas típicas e tocavam instrumentos peculiares como a manjira e o sarangi. Vozes guturais lançaram no silêncio do deserto um som melodioso e os dançarinos se mexiam de forma desinteressada, abanando o pescoço como se fosse independente do corpo e fazendo acrobacias. Nós assistíamos sentados em almofadas formando um semicírculo enquanto serviam deliciosos canapés. Tudo isto acontecia em volta de uma fogueira que dava uma sensação intimista. Certo momento a luz que incidia sobre o palco foi diminuindo até que se extinguiu. De repente um zunido... e pum! Fogos de artifício coloriram a noite, em explosões mágicas em baixo do céu estrelado, ao som daqueles ritmos maravilhosos!

Mais tarde, findo o jantar e espetáculo de músicaquando todos se recolheram nas suas tendas, o silêncio imperou. No meio do nada, o tempo parou, as estrelas eram ainda mais brilhantes e conseguíamos ver o movimento da Terra no universo. E é assim, num ponto tão pequenino no deserto, que conseguimos aguçar todos os sentidos e aquecer o coração.


Como chegar: a Lufthansa, a Etihad, a Qatar Airways, a Emirates, a Suiss, a AirFrance e a British Airways fazem viagens de São Paulo para o aeroporto internacional Indira Gandhi em Deli, com uma conexão. O ônibus ou trem para Jodhpur podem durar até 12 horas, mas um voo local é de pouco mais de uma hora. O resort fica a 110 quilômetros de Jodhpur. Os ônibus na direção de Dechu passam na frente do resort – aconselhamos a pedir ao motorista (em inglês) para parar em frente ao Manvar. Para maior comodidade, um táxi do hotel de Jodhpur sai a partir de 3000 rupees (R$ 112).


Preço da diária: 9700 rupees (R$ 360) por quarto duplo, para duas pessoas. Inclui todas as refeições (exceto bebidas), passeio de camelo e safári de jipe.

Fotos: Deserto do Rajastão (primeira imagem). Pôr-do-sol no Rajastão (segunda foto, à direita). Povoado no deserto (terceira imagem, à esquerda). Jovem do Rajastão pede para tirar uma foto sua (quarta foto, à direita. Foto de © Natasha Sá Osório). Espetáculo de músicas e danças tradicionais (última foto).

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