Por: Natasha Sá Osório

“Cada vez que eu tomo um copo de vinho, eu olho para o líquido e admiro-o, respeito-o. Porque eu lembro sempre do suor que levou para o fazer. Foram árduos trabalhos de anos e anos, de pessoas que construíram cada socalco na terra das montanhas.”

Não foi um escritor duriense, como Miguel Torga ou Guerra Junqueiro, quem pronunciou estas palavras. Foi António Pinto, velejador de um barco que navega o Douro, aquele rio que nasce na Serra do Urbião, na Espanha, e lambe a terra em dengosas carícias até chegar à foz das cidades de Porto e Gaia, atravessando de ponta a ponta o norte de Portugal. É deste amor trazido pela natureza e do suor de milhares de pessoas que pintaram as montanhas em socalcos, plantaram e colheram das videiras, pisaram as uvas e engarrafaram o néctar, que surgem os mais conceituados vinhos do mundo, os vinhos do Douro. Por isso, beber um cálice envolve-se de significado; e visitar esta região, também.

Vinho do PortoPor Douro, o viajante comum pensa apenas tratar-se daquela área ribeirinha entre as margens das cidades de Porto e Gaia, com suas casinhas pitorescas vigiadas pela belíssima Serra do Pilar. Mas é preciso adentrar o rio para conhecer o verdadeiro Vale do Douro, onde se veem os vales com montanhas recheadinhas de videiras, onde ainda se lava a roupa no rio e onde se cantam as janeiras – a tradição, já quase inexistente, em que grupos de pessoas batem à porta das casas em janeiro, cantando para anunciar o nascimento de Jesus, e pedindo esmola para ajudar alguma causa social. Além de um trocado, os anfitriões das casas também oferecem, claro, vinho.

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Na terra de Baco se destacam seis aldeias vinhateiras: Favaios, Provesende, Barcos, Salzedas, Trevões e Ucanha. É lá onde todos os anos se realizam, de setembro a outubro, as maiores festas que celebram as vindimas, o apogeu do ano para as quintas produtoras de vinhos do Douro que adornam as encostas das montanhas: a Quinta do Seixo, a Quinta da Assada, a Quinta das Apegadas... São mais de 60 e em várias delas você pode pernoitar, visitar e fazer prova.
alheiras do Douro
Do vinho à gastronomia tradicional do norte de Portugal
O vinho preside as refeições de mesa farta, compartilhadas com amigos e família. São banquetes que têm sempre início, meio e fim.

Babe com a comida típica do Douro: para entrada, requeijão português (semelhante ao ricota), embutidos vários e pão de trigo embebido em azeite – afinal, onde há vinho, há azeite! Alheira, javali estufado, anho (cabrito) e vitela com batatas assadas e arroz de forno, são servidos no prato principal. E maçã assada, rabanadas e leite creme (crème brûlée) para fechar a conta. Mas não sem antes tomar um cálice de vinho do Porto para ajudar a digestão. Não há dúvida de que visitar o Douro significa voltar para casa com uns quilinhos a mais.

Quase todas as casas de turismo rural que recomendamos oferecem bons momentos à mesa. Mas há restaurantes que valem a pena conhecer, como o Castas e Pratos e o DOC, estabelecimento de alto luxo liderado pelo chef Rui Paula, que privilegia a reinvenção dos pratos tradicionais de Portugal.

Logo em frente ao restaurante DOC, encontra-se a marina onde atraca o veleiro de turismo fluvial, o Douro-à-Vela (leia aqui a resenha).

Como circular no Douro Estação do Pinhão
Há vários passeios de barco para navegar no rio Douro. Por via terrestre, a forma ideal de se locomover é alugar um carro com GPS na cidade do Porto ou contratar o serviço de um motorista-guia - uma opção prática, já que ele poderá dar dicas e saberá atalhos que tornarão os seus dias mais rentáveis. A companhia Douro-à-Vela oferece guia poliglota com van que transporta até seis pessoas.

Há também trens que partem do Porto para estações espalhadas junto ao rio. Na estação do Pinhão, por exemplo, há um ponto de táxi, mas você terá sua locomoção pelo Douro bastante restrita se optar por este modo.

O que fazer no Douro
Vale o passeio na pequena, pitoresca estação de Pinhão, onde azulejos azuis e brancos retratam a vida das vindimas. Logo em frente, a loja Qualifer vende ótimos embutidos, queijos, vinhos e outras bebidas alcoólicas típicas. Atrás do balcão, o senhor Fernando prometerá o fim da celulite, alegria eterna, proteção contra o mau olhado e a ressurreição com o consumo de carnes defumadas. Comprando os produtos, nada disso acontece: mas valem excelentes souvenires e a alegria momentânea é certa.

Há várias atividadeFernando da loja Qualifers que o Douro proporciona, bastando para isso organizar os passeios junto ao concierge do seu hotel ou casa de turismo rural:
- Navegar de cruzeiro no rio Douro;
- Percorrer a rota do vinho do Porto, das aldeias vinhateiras e do azeite;
- Praticar esportes náuticos ou radicais;
- Passear nos parques naturais do Alvão e do Douro Internacional;
- Conhecer feiras e romarias de artesanato;
- Visitar patrimônios arqueológicos, como as gravuras rupestres de Foz Côa, Mamoa de Madorras, Castro de Sabrosa e Panóias;
- Admirar pontos turísticos edificados, como o Museu do Douro, o Palácio de Mateus e a Igreja Matriz de Barcos (datada do século 13).

Fotos: Reuters, Sofia Ferreira e Natasha Sá Osório. Paisagem do Douro (primeira imagem, à esquerda). Copo de vinho do Porto (segunda foto, à direita). Prato de alheira (terceira foto, à esquerda). Estação do Pinhão (quarta imagem, à direita). Fernando da loja Qualifer, explicando sobre os embutidos (última foto, à esquerda).

Comentários

O Douro é um lugar maravilhoso! Vale mesmo a pena visitar.
O artigo está fantástico e muito bem complementado com as informações dos links! Da próxima vez que eu for visitar o Douro, de certezinha que venho cá buscar outra vez a informação pois quando fui há 2 anos, pelos vistos, não vi nem metade! Obrigada, Mulher Viajante!
PS- O sr. Fernando deve ser um máximo! :)

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