Por: Natasha Sá Osório

O mercado é o reflexo da sua sociedade, da cultura e da história que marcam um espaço que é, por tradição, o centro de atividade das cidades. No Porto (Portugal), e Melbourne (Austrália) isso é bastante aparente.


“Olha o Robalo fresquiiinho!” – Grita a peixeira no mercado do Bolhão no Porto, em Portugal. “Oh mor, vem ver o peixe fresquiinho!” Esta tradição de anunciar a mercadoria nas ruas que remonta há mais de cinco décadas é chamada de “pregão” e ainda não morreu completamente na cidade Invicta. Os vendedores já não andam pelas ruas mas, apesar dos novos shoppings e supermercados que nascem a todo o momento nesta região do Douro, o mercado do Bolhão continua firme e forte, apregoando e vendendo comida fresca desde o seu início em 1839. O peixe ainda é enrolado em jornal e as feirantes ainda calçam tamancos e vestem aventais floridos. Entrando pela fachada neoclássica, é fácil nos sentirmos voar atrás no tempo.


O Português é assim. Agarra-se às modas do passado e custa a mudar. As coisas novas chegam ao país, mesmo que com algum atraso em relação ao resto da Europa, mas a sociedade gosta de tradições. O fado reavivou nos últimos anos com furor e há novos artistas com sons folclóricos que fazem sucesso, como Oquestrada e Deolinda. Desta última, a letra da canção Movimento Perpétuo Associativo canta: “Agora sim, damos a volta a isto! ... Agora não, que é hora do almoço!” demonstrando resistência à mudança. Ainda tem gente que casa com os primeiros namorados e o núcleo familiar se mantém unido.

mercado de Jodhpur, na Índia
Um exemplo mais exacerbado de união familiar se vê no mercado de Jodhpur, na Índia. Aí é costume famílias inteiras fazerem as vendas juntas, mesmo crianças. Aliás, os Indianos dão show de bola nas vendas; eles chamam quem passa na rua (aos turistas eles gritam “hello!” e isso acontece com tanta frequência que julgamos ter mudado de nome), tocam, conversam. As primeiras perguntas para o turista são sempre: de onde vem? Primeira vez na Índia? As questões parecem inocentes, mas elas dão todas as informações que eles precisam para saber se farão um bom negócio. A reação deles é mais ou menos entusiasmada de acordo com a riqueza do país de proveniência (acreditem que Burkina Faso, na África, não tem o mesmo impacto que a Inglaterra, por exemplo). Também interessa saber qual é o seu grau de conhecimento dos preços e dos costumes. Alguém que responde: “É minha sétima vez na Índia e desta vez resolvi ficar” terá fibra na hora de regatear e eles sabem que não podem exagerar no preço. Por fim perguntam o nome para criar mais empatia e aí começa o jogo da venda. Isto é o resultado de séculos de trocas comerciais com estrangeiros, que entram e saem da Índia há bem mais tempo do que a descoberta do caminho marítimo pelos Portugueses em 1498.


Os produtos muitas vezes são colocados em cestos no pavimento, onde os vendedores se sentam de cócoras, de joelhos dobrados e as plantas dos pés no chão. Essa posição é também a que eles usam para ir ao banheiro. Uma verdadeira sessão de equilibrismo! A cultura Indiana revolve em contato direto com o solo. É comum as famílias, mesmo as mais abastadas, comerem juntas sentadas no chão. Na verdade as casas nem sempre têm cadeiras.


O mercado de Jodhpur é o culminar do frenesi da cidade. Homens, mulheres, crianças, vacas, bodes, galinhas, motos e tuk-tuks (a motinha em triciclo com cabine que leva passageiros) competem entre si para circular em ruas íngremes, atoladas de produtos e entulho de higiene duvidável. Essa confusão se torna ainda mais perene na hora de procurar alguma coisa. Vegetais misturam-se com roupas, com comidas, com bric-à-bracs e o que mais houver.


mercado Rainha Victória, Melbourne Já o mercado Rainha Victória (Queen Victoria) em Melbourne é completamente oposto. Aliás, ele reflete bem o resto da Austrália: limpo, arrumado e espaçoso. Os produtos estão tão organizados que só faltava serem colocados em degradê e por ordem alfabética. Os balcões estão colocados por tema, ficando em primeiro as roupas e por último as comidas. Tem até uma área reservada para as carnes e peixes, com um poderoso sistema de ar condicionado, e uma área destinada a iguarias internacionais.


“Os Britânicos vieram para cá tentando fazer mais e melhor”, explica Ronnie Dee de 26 anos, filho de uma das vendedoras do mercado, referindo-se à chegada de James Cook à Austrália em 1770 e consequente ocupação Britânica. “Daí nós termos muito cuidado com a natureza e o local onde vivemos.”


Disso não há dúvida. A tradição do churrasco criou pelas várias cidades Australianas áreas de lazer com grelhas, mesas e cadeiras públicas, geralmente espalhadas perto da praia. E quem usa, limpa. Não tem isso de deixar gordura ou lixo espalhado. A poluição é uma preocupação constante para os Australianos, visto à sua proximidade com o buraco na camada de ozônio. O Rainha Victória foi criado em meados de 1800, apenas alguns anos depois do Bolhão no Porto, mas já apresenta características bastante modernas. A energia provém de painéis solares, proíbe o uso de sacolas de plástico e tem um vasto programa de reciclagem, diminuição de lixo e sustentabilidade ecológica. Uau, o que mais tem de diferente? Muito simples, para quem vai à procura de pechincha (algo mais típico de mercadão) este não é local indicado. Os preços não são negociados e não são competitivos em relação a outros postos de venda porque os produtos, muitos deles orgânicos, são ótimos para quem procura qualidade.


Um mercado traz em si toda a herança cultural de uma cidade. É sempre interessante conseguir ver o espelho de uma sociedade tão bem retratada e pode-se mesmo dizer que se conhece bem uma nação visitando os seus mercadões. Nunca as características são tão cruas como aí.

Fotos: mercado do Bolhão, no Porto (primeira imagem), imagem de Natasha Sá Osório. Mercado de Jodhpur, na índia (segunda foto, à direita), Shutterstock. Mercado Rainha Victória, Melbourne (última imagem, à esquerda), Shutterstock.

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